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Ponto de Vista
Quem quer ser primeiro-ministro?
20 de Fevereiro de 2010
Agora que vai andar na moda a comemoração da República, voltamos a reler episódios que, passados há mais de 100 anos, se vão parecendo com o que se passa hoje. Como por exemplo a noção de liberdade de imprensa: andava tudo a dizer mal do rei, nomeadamente por causa dos “adiantamentos” (o rei tinha direito a “1 conto de reis por dia” mas já levava de avanço mais de 3.000 contos) quando foram publicadas as leis da Imprensa, também conhecidas pelas leis da “rolha” e logo se começou a falar de censura. Mas a verdade é que, nas vésperas da República, Lisboa tinha 400 mil habitantes e vendiam-se 250 mil jornais que serviam causas, denegriam inimigos e proclamavam ideais sem disfarces nenhuns, onde se insultava quem muito bem se queria, se chamava “lama” à Monarquia e “corrupto”, “bandido” e “ladrão” ao rei D. Carlos.
Faz lembrar a anedota daquele cidadão vai a passar junto à porta do plenário da Assembleia da República e ouve uma gritaria lá de dentro: “Corrupto, Bandido, Ladrão, Traficante, Mentiroso, Pedófilo, Trafulha, Vendido, Oportunista…” E o cidadão pergunta ao segurança: “O que é que está a acontecer? Estão a brigar?” “Não —responde o segurança—, cá para mim estão a fazer a chamada para saber se falta alguém.”
Mas esta atitude de usar o barulho, ou não olhar a meios, para atingir os fins é intemporal.
A maior “carga de porrada” que já levei foi num concurso na televisão feito pelo Albarran que se chamava qualquer coisa do género “quem quer ser primeiro ministro?” E então eles tinham usado uma série de figuras públicas e, num dado programa, o Santana Lopes, que estava em disputa com um advogado que não me lembro o nome mas que fazia comentários sobre crimes num outro programa, zangou-se e esteve quase a abandonar o concurso. Para o programa seguinte convidaram-me a ir ao concurso contra o tal advogado que tinha ganho a disputa no programa anterior. Aceitei com todo o gosto e quando lá me vejo a debater as posições como se eu fosse o “líder da oposição” e o outro o “primeiro-ministro” em exercício, posições essas que eram votadas por uma “assembleia da república” para saber quem ganhava, quer dizer, se ele continuava a ser “primeiro-ministro” ou se eu lhe arrebatava o lugar, constatei que o meu “adversário” tinha uma claque de serviço, quer dizer, tudo o que eu dizia era apupado, tudo o que ele dizia era aplaudido. Lá me aguentei como pude, não consegui fazê-lo “cair” e depois passei uns dias a recuperar daquilo que só consigo comparar a uma muito grande “carga de porrada” psicológica, ainda hoje não sei explicar melhor a sensação. Claro que, como experiência, mesmo má, foi valiosa. Mas ainda hoje tenho pena de ter sido tão “bem-comportado” e de não ter feito o que fez o Santana: ou eles faziam jogo leal ou eu não jogava. Claro que isso implicaria mandar calar a “claque”. E estão a ver o que depois diriam de mim? Que eu era contra a liberdade de expressão.

Carlos Carvalheiro
 

 

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