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Ponto de Vista
TENHO DE FALAR NO HAITI, NÃO É?
23 de Janeiro de 2010
Eu devo andar a ficar coração pedra-dura, mas não me consigo emocionar com o terramoto do Haiti.
Não é que não tenha sido uma tragédia. Claro que foi. E terrível. Mas a focalização mundial numa tragédia permite como que um “passar o pano” por outras, menos “espectaculares”, mas igualmente terríveis. E toda a gente fica feliz por poder ter oportunidade de ser “bonzinho”. Mas a questão que se coloca sempre, logo a seguir a ser-se solidário e ajudar à satisfação das necessidades básicas das vítimas de uma desgraça, é quanta roubalheira, quanto oportunismo, quanto desrespeito pelo outro isso provoca. E é sempre muito.
Ser civilizado é respeitar o outro. Um pais como o Haiti, antes deste terramoto, era um alfobre de desrespeito pelo outro, ou seja, um pais pouco civilizado. Agora é um pais destruído, mas continuamos a ver a quantidade de sacanas que se aproveitam da desgraça, irmãos contra irmãos. Quando as imagens da fome e da miséria derem lugar a imagens de gente mais calma, deixará de ser notícia. E poderá começar a verdadeira rapina. Ou não, se for possível impor uma atitude civilizada, que, e repito, significa respeitar o outro. Fica a esperança de que, no Haiti, este terramoto seja uma oportunidade para recomeçar e construir um pais mais civilizado. Tal como o foi o terramoto de Lisboa de 1755.
Mas talvez me explique melhor com um trecho de “Tannhäuser – O Tesouro dos Templários”, espectáculo que o Fatias de Cá fez nas três últimas Festas dos Tabuleiros. Em cena a rainha D. Isabel, mulher de D. Dinis (e que diz a lenda que foi feita santa por ter mentido ao marido) e D. Ana, dama de companhia:
D. Isabel: Ana, trouxeste o cesto do pão?
D. Ana: Para insistirdes em matar a fome aos mais necessitados? E a fome de sabedoria, senhora?
D. Isabel: A sabedoria pode não habitar num estômago cheio, mas por certo nunca habitará num vazio.
D. Ana: Já ouvi isso algures, senhora.
D. Isabel: A caridade é o princípio da vida perfeita.
D. Ana: Também isso ouvi algures. Quando falo com a língua dos anjos, se não tenho o amor… não sou senão um sino que ressoa. Quando tenho o dom da profecia, a ciência de todos os mistérios e todo o conhecimento, mesmo que tenha toda a fé, a que remove montanhas, se não tenho o amor… não sou nada. O amor é paciente, é cheio de bondade, suporta tudo, espera tudo. O amor nunca desfalece, porque as profecias terão um fim, as línguas calar-se-ão, o conhecimento desaparecerá e então restará a fé, a esperança e o amor, mas, o maior dos três… é o amor. Ali tendes o cesto de pão, senhora.

Carlos Carvalheiro
 

 

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